terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Cada um tem a visão do que consegue ver.

Diferente não é quem pretenda ser. Esse é um imitador do que ainda não foi imitado, nunca um ser diferente.

Diferente é quem foi dotado de alguns mais e de alguns menos em hora, momento e lugar errados para os outros. Que riem de inveja de não serem assim. E de medo de não agüentar, caso um dia venham, a ser. O diferente é um ser sempre mais próximo da perfeição.

O diferente nunca é um chato. Mas é sempre confundido por pessoas menos sensíveis e avisadas. Supondo encontrar um chato onde está um diferente, talentos são rechaçados; vitórias, adiadas; esperanças, mortas. Um diferente medroso, este sim, acaba transformando-se num chato. Chato é um diferente que não vingou.

Os diferentes muito inteligentes percebem porque os outros não os entendem. Os diferentes raivosos acabam tendo razão sozinhos, contra o mundo inteiro. Diferente que se preza entende o porque de quem o agride. Se o diferente se mediocrizar, mergulhará no complexo de inferioridade.

O diferente paga sempre o preço de estar - mesmo sem querer- alterando algo, ameaçando rebanhos, carneiros e pastores. O diferente suporta e digere a ira do irremediavelmente igual: a inveja do comum; o ódio do mediano. O verdadeiro diferente sabe que nunca tem razão, mas que está sempre certo.

O diferente começa a sofrer cedo, já no primário, onde os demais de mãos dadas, e até mesmo alguns adultos por omissão, se unem para transformar o que é peculiaridade e potencial em aleijão e caricatura. O que é percepção aguçada em : "Puxa, fulano, como você é complicado". O que é o embrião de um estilo próprio em : "Você não está vendo como todo mundo faz? "

O diferente carrega desde cedo apelidos e marcações os quais acaba incorporando. Só os diferentes mais fortes do que o mundo se transformaram (e se transformam) nos seus grandes modificadores.

Diferente é o que vê mais longe do que o consenso. O que sente antes mesmo dos demais começarem a perceber. Diferente é o que se emociona enquanto todos em torno agridem e gargalham. É o que engorda mais um pouco; chora onde outros xingam; estuda onde outros burram. Quer onde outros cansam. Espera de onde já não vem. Sonha entre realistas. Concretiza entre sonhadores. Fala de leite em reunião de bêbados. Cria onde o hábito rotiniza. Sofre onde os outros ganham.

Diferente é o que fica doendo onde a alegria impera. Aceita empregos que ninguém supõe. Perde horas em coisas que só ele sabe importantes. Engorda onde não deve. Diz sempre na hora de calar. Cala nas horas erradas. Não desiste de lutar pela harmonia. Fala de amor no meio da guerra. Deixa o adversário fazer o gol, porque gosta mais de jogar do que de ganhar. Ele aprendeu a superar riso, deboche, escárnio, e consciência dolorosa de que a média é má porque é igual.

Os diferentes aí estão: enfermos, paralíticos, machucados, engordados, magros demais, inteligentes em excesso, bons demais para aquele cargo, excepcionais, narigudos, barrigudos, joelhudos, de pé grande, de roupas erradas, cheios de espinhas, de mumunha, de malícia ou de baba. Aí estão, doendo e doendo, mas procurando ser, conseguindo ser, sendo muito mais.

A alma dos diferentes é feita de uma luz além. Sua estrela tem moradas deslumbrantes que eles guardam para os pouco capazes de os sentir entender. Nessas moradas estão tesouros da ternura humana. De que só os diferentes são capazes.

Não mexa com o amor de um diferente. A menos que você seja suficientemente forte para suporta-lo depois."

Harthur da Távola.

12 comentários:

  1. Somos pessoas únicas em todo o nosso ser. Somos capazes de fazer valer a nossa racionalidade sobre nossos instintos naturais. Trazemos particularidades únicas na maneira de viver, de responder às exigências, de enfrentar as dificuldades e também de assimilar os acontecimentos ocorridos contra a nossa vontade. Beijos meu amorzinho

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  2. Uau!!
    Amei cada palavra!
    Atuamente, SER é extremamente difícil. Imagine SER DIFERENTE?
    Tarefa árdua, porém deliciosa!

    Beijos e obrigada pelas palavras de carinho!

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  3. Lis
    Lindissimo texto, carregado de sentimento...adorei ler.

    Beijinhos

    sonhadora

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  4. Há quem diga que perdi meu filho e tente fazer de tudo para que eu acredite.
    No dia em que eu acreditar, é porque desisti. Morrerão dois e não um.
    É a minha chama, o que me alimenta, o meu Amor*
    Faz pouco tempo que enxergo (leio, etc.) com os olhos do rosto, e mesmo assim... Era e ainda é com os dedos (e todos os sentidos e sentimentos). A cor era verde, agora é negra. Adoro*
    Bom Dia sempre, Lis, sempre oportuno*
    Renata
    Cada um tem a visão que quer*

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  5. Excelente texto, às vezes somos compelidos a agir e ser como querem que sejamos, e se somos diferentes somos os ´errados´.. Me lembro do comercial da Coca-Cola com aquele mula do Chorão do Charlie Brown Jr. dando um pito num cara que era ´diferente´ pois não usava as cores da Coca-Cola... É bem isso...

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  6. Oiii.
    Vim agradecer as palvras que deixou no meu blog.
    Obrigada pela atenção.
    Um Beijo !!!!

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  7. Querido Lis,

    O Arthur da Távola sempre atinge (falo no presente porque escritores e poetas nunca morrem) o cerne das questões. As palavras dele são como uma lamparina a nos guiar pela obscuridade dos sentimentos. Sim, ele sempre enxerga luz aonde só vemos trevas e sempre espalha perfume de flores no mais agreste dos sentimentos.

    Beijos diferentes,
    Inês

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  8. Muito bom, Lis! Excelente escolha! Gostei daqui! Posso vir outras vezes? :)
    abraço!

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  9. MARAVILHOSO....postagem que me faz "do jeito que eu sou"...como me identifico contigo e com seus post, somos igualmente diferentes, ou seriamso iguais na diferença, ou diferentemente ousados...sim, pq somente quem ousa assumir o que é, pode fazer a diferença.
    a experiencia é a vida com asas Lis, isso te faz o cara por quem tenho tanto carinho, admiraçao e respeito. sua visao, sua ousadia pra ir a favor da sua visao independente do mundo. voce me enriquece, contigo aprendo e compartilho. parabens pela escolha....maravilhoso mesmoooo
    bj carinhoso

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  10. Olá amigo Lis, muito especial este texto.
    Usar a diferença positivamente é inteligência não é mesmo?!
    Abraços...

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